Malcolm Gladwell em sem livro O Ponto da Virada, entre outras coisas, conta a história de como a cidade de Nova Iorque nos anos 90 praticamente refez as suas linhas de metrô, transformando-as de um local sujo onde o crime era uma constante para um dos mais modernos e organizados metrôs do mundo. Além disso nessa mesma época a cidade que tinha uma alta taxa de criminalidade viu o crime cair em grandes proporções.

O segredo? Não deixar janelas quebradas!
Primeiro, como pode ser visto, os metrôs eram todos pixados, em um processo de grafitagem que levava três dias. Então eles resolveram que ao primeiro sinal de pixação o trêm seria limpo antes de ser colocado novamente nos trilhos. Resultado, ninguém queria ter que recomeçar o trabalho de pixar tudo do início novamente e os trens deixaram de ter essa imagem suja.
Na segunda etapa, como haviam muitos crimes no sistema metroviário, eles resolveram acabar com as viagens de graça (muita gente simplesmente não pagava o metrô porque algumas pessoas “travavam” a catraca), estima-se que em torno de 170 mil pessoas por dia usavam o metro sem pagar. Policiais à paisana pegavam os caloteiros, algemavam e deixavam à vista na plataforma para mostrar que aquilo estava mudando. Melhor que isso, 1 em cada 7 dessas pessoas tinha uma ordem de prisão anterior e 1 em cada 20 portava algum tipo de arma.
Claro, não foi somente isso que gerou toda essa mudança, mas isso iniciou o processo.
Enfim, qual o segredo? Atenção aos detalhes do ambiente. Ainda no ponto da virada, uma pesquisa é citada dizendo que muitas vezes nossas atitudes são influenciadas pelo ambiente em que estamos, ou seja, aquela máxima de “A ocasião faz o ladrão” é válida para outras coisas também, como, por exemplo, em ambientes agressivos pessoas se tornam mais agressivas.
“O Poder do Contexto estabelece que não precisamos resolver grandes problemas para encontrar a solução para a criminalidade. Podemos previnir a ocorrência de delitos apenas limpando a sujeira das paredes e prendendo os caloteiros.”
O ponto que eu quero chegar é se você quer exigir qualidade no software que você e sua equipe fazem,
garanta qualidade de ambiente de trabalho. Não espere que num ambiente que ninguém se importa com a imagem, com o conforto, com a limpeza, com o silêncio, etc, seus desenvolvedores farão o mesmo. Num local onde a máxima é algo como “um canto pra eles trabalharem” provavelmente vai gerar um software do tipo “só faz funcionar que tá valendo”.
Desenvolvedores realizam atividades criativas. Ponto! Você tem que pensar pra criar código e se quiser criar um código bem feito precisa pensar mais ainda.
Não insista! Não ache que criar software é igual levantar uma parede. Não! A analogia do construção civil também não se aplica para construção de software nesse caso.
Construir software está muito mais parecido com um profissional que constrói instrumentos musicais manualmente. Quanto melhor ele puder se dedicar a isso, tiver ferramentas, espaço e ambiente propício, melhor será o som do instrumento. Qual o resultado disso? Quanto melhor o instrumento, melhor o som.

Da mesma forma se você quer que seus desenvolvedores produzam bem e com qualidade, comece pelo ambiente de trabalho. Um ambiente onde ninguém consegue sentar devidamente porque suas pernas não cabem embaixo da mesa, ou onde não há espaço para apoiar os braços, ou cadeiras tão desconfortáveis que dão dores nas costas, na melhor das hipóteses diz “não nos importamos como, apenas faça o que tem que ser feito”. Além disso, como dois desenvolvedores poderão parear ou colaborar um com outro se não podem sentar um ao lado do outro?
Se queremos bons softwares, temos que trazer condições para os desenvolvedores criarem, para que possam se inspirar e isso começa com um bom ambiente.
Da convivência de anos com desenvolvedores e eu mesmo sendo um, posso deixar aqui algumas dicas:
- Comece com uma boa cadeira, onde seja possível adaptá-la as necessidades fisicas individuais. Afinal de contas é sentado nela que o desenvolvedor passará a maior parte do tempo.
- Uma mesa onde seja possível acomodar duas pessoas olhando para o mesmo computador ou que possam ter dois computadores lado a lado e ainda espaço para usar mouse, apoiar braços, deixar blocos de anotação entre outras coisas na mesa.
- Desenvolvedores costumam gostar de coisas excêntricas, como bonecos, imagens, etc. Deixe um espaço para isso também e permita esse tipo de ambiente, isso exercita a criatividade.
- Gaveteiros dificultam a movimentação, deixe um espaço um pouco afastado das mesas para isso.
- Se possível permita que a disposição das mesas possa ser modificada conforme a necessidade do pessoal.
- Um quadro branco é uma das melhores formas de comunicação, e você quer que todos saibam o que está acontecendo não é?
Por fim, se o ambiente dos seus desenvolvedores não está sob sua responsabilidade, ao menos reivindique que eles tenham um espaço saudável para trabalhar.
Não se esqueça: desenvolvedores felizes com certeza produzirão um software melhor, com menos bugs e portanto com menos dor de cabeça.
PS.: Segunda, 13 de setembro, foi o dia do programador, parabéns!